
O imponente vulcão Villarica
soltando fumacinha no topo de seus 2840 metros

Isabel Clark Ribeiro, carioca, 24 anos, é campeã
brasileira e sul-americana de Snowboard
Klaus Thiele, 58, trinta de montanhismo, dois no Villarrica,
proprietário da agência de turismo aventura Anden
Sport
Benedito Neto, 30, curitibano freerider chorão –
emociona-se facilmente frente à neve virgem.
|
Foram
cinco horas de escalada nas encostas de um dos vulcões
mais ativos do planeta, o segundo do Chile, o fumegante Villarrica.
No alto dos 2840 metros de seu cume, os quatro integrantes da
expedição, Isabel, Bene, Baró e o incansável
Klaus, veterano guia alemão, se maravilham com a visão
desconcertante dos confins da Cordilheira dos Andes; onde as montanhas
nevadas começam a diminuir e dispersar-se, cedendo espaço
a verdes vales, rios caudalosos e aos enormes lagos andinos...
O forte cheiro de pólvora, oriundo do enxofre exalado pela
montanha, inundava nossos pulmões... Fracos, com pernas
bambas, tentávamos recompor-nos da incrível façanha
recém-realizada. Longos trechos de neve fofa e o perigoso
gelo que envolve os 200 metros de diâmetro da boca do vulcão
foram vencidos a custa de muita raça: “Não
imaginava que a subida fosse tão cansativa e, em alguns
pontos, traiçoeira, como o trecho final de puro gelo”,
confessava nossa ilustre companheira, Isabel Clark, campeã
brasileira e sul-americana de snowboard.
As pranchas carregadas por toda a montanha nas mochilas consistiam
em nosso meio de volta à civilização. Finalmente
iríamos surfar um dos fora de pista mais almejados da América
do Sul! Passavam das 16h30, Klaus nos alertava para a descida
- corríamos o risco de ficar sem luz no meio da ladeira...
Subida Penosa
Apesar de ser considerada uma escalada de nível fácil
por alpinistas profissionais, ou mesmo um trekking pesado, para
nós, meros aventureiros com as pranchinhas nas costas,
a subida à cratera foi um sacrifício extremo. Ficamos
na média, superamos a enorme ladeira nevada em cinco horas.
Munidos de grampões, anexo de metal dentado na sola da
bota, e piolets, espécie de picareta própria para
o gelo, começamos o longo trecho de neve fofa seguindo
os passos de Klaus. Ganhávamos altura aos poucos, seguindo
em fila e em zigue-zague, administrando o ritmo – fala-se
apenas o indispensável, procurando manter a respiração.
O cume sempre fumegante esconde-se e aparece, nos engana. Parecia
que não faltava tanto assim. Doce ilusão, apenas
passava da primeira hora de escalada... Nas paradas para o descanso,
saciávamos a sede e a fome, com frutas e chocolate, sentados
de cara para a vista mais espetacular das nossas vidas: três
lagos majestosos, o Villarrica, o Caburga e o Huilipilun que mudam
de cor com o passar do dia; no horizonte, fileiras de montanhas
nevadas; picos de montanhas vizinhas parecem estar ao alcance
das mãos; ao Leste, em direção à Argentina,
ergue-se o imponente vulcão Lanin, com seus 3807 m... A
cordilheira nos abraça! Bel, descontraída, contempla
a cidade de Pucón em miniatura e me pergunta “Onde
vamos jantar??”
Gelo Traiçoeiro
A escalada continua passo-a-passo. A cratera nos guardava o pior
castigo: nos últimos 100 metros a energia se esgotou! Os
ventos confusos sopravam forte ao redor do cume, transformando
a neve em gelo. As pranchas carregadas nas mochilas teimavam em
derrubar-nos, como um pára-quedas, obrigando-nos a escalar
agachados: mão direita encrava o piolet no gelo, seguida
de um passo e depois do outro. Chutes no gelo fixam os pés
na “rocha” gelada – qualquer escorregão
entregava-nos ao risco de deslizar ladeira abaixo. Haja fôlego!
Sem dúvida o lugar mais inóspito que enfrentara
até então. Relatos ouvidos nas vésperas vêm
à mente com imagens de pessoas despencando por dezenas
de metros, quebrando braços, pernas, clavícula...
Realmente, com o gelo, não há como parar!
cume
e descida >>
<< home
|